O Chasidrama, de Ronen Gridish Destaque!

Ronen Gridish

De uma criança que cresceu com baixa autoestima e que cuja vida seguia pelo que os outros ditavam, Ronen Gridish deu, digamos, a volta por cima. Ele iniciou um programa que batizou de “Chasidrama”, cujo um dos pilares é o psicodrama. Tal iniciativa foi criada por ele para ajudar crianças com dificuldades para expressar suas próprias emoções. Ronen sabe como essas crianças se sentem, porém também sabe como ajudá-las.

 

 

 

Fonte da matéria: Beit Mashiach (Kislev 5773) by Nossom Avrohom

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Tradução de Pessach Chusyd

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Chaim, pseudônimo, está somente com nove anos mas suporta uma pesada carga emocional em seus ombros. De muito longe lhe vem a lembrança do desprezo pelo qual passou. Seu pai disse que cada família tem a sua ovelha negra, que se destaca negativamente das demais. Chaim é um menino infeliz. Isto é só um exemplo. Não surpreende que Chaim tenha parado de acreditar em si mesmo e em suas habilidades, a ponto de retirar-se e não ousar mais abrir sua boca.

Ele chegava no horário à escola, mas o trabalho escolar era a última coisa que tinha em mente. Mas, intimamente, ele aguardava com ânsia pelo final da aula, porque, para ele, era como um pesadelo aquilo que chamavam de escola. Na realidade, ele nunca prestava atenção à aula. Sua atitude para com os professores se dava como uma espécie de “cessar-fogo”: “Eu não vou aborrecer vocês e vocês fazem o mesmo comigo, ok?”. 

Assim, anos se passaram com essa trilha de acontecimentos.  Seus professores dos primeiros anos o descreveram como alguém que não conseguiu desenvolver seus talentos ou de ter extraviado seu potencial. Na sua folha escolar podia-se ler que era uma criança particularmente fraca, uma criança sob o risco de não dar certo, triste, temerosa de sua própria sombra.

Mas seus pais tentaram e ele se encontrou com profissionais que trouxeram alguns diagnósticos:  uns disseram que ele necessitava de terapia; já outros voltaram no tempo para a experiência difícil de sua mãe desde o seu nascimento. De alguma forma, era uma tentativa de explicar seu comportamento. Nenhum deles viu a criança. O que eles todos falavam era do grau de deterioração a que Chaim se subjugava. Assim, um comitê pedagógico recomendou que ele recebesse uma educação especial.

Então, quando tudo parecia se encaminhar para um grande buraco negro, uma luz surgiu de um canto inesperado. Seus pais o inscreveram em um programa chamado “Chasidrama”, o qual estava sob a coordenação de Ronen Gridish. Foi a maneira encontrada por aqueles para que Chaim ficasse com suas tardes ocupadas. 

Na realidade, ninguém a esta altura ousava esperar que o menino fizesse qualquer coisa. O objetivo era não ver Chaim sentado em casa “à toa” enquanto seus pais estivessem trabalhando.

“O sucesso com Chaim não aconteceria instantaneamente, e eu tinha como certo que para isso teria de ser investido muito trabalho, mas, começar era preciso”, disse Ronen. “Tomamos uma criança cuja luz interior tinha se apagado. Quando ele era solicitado a se levantar, ele o fazia, e o mesmo se dava quando solicitado a se sentar. Nada mais que isso”, completou Gridish.

Ronen também lembrou as primeiras lições nas quais  Chaim mal respondia:

“Ele vivia em um estado de confusão interior, e eu o entendia perfeitamente porque tinha tido uma vida parecida e sabia para onde ele estava se dirigindo. Em sua alma havia um choro que não podia ser expresso em palavras. E foi somente na septuagésima ou octogésima lição que Chaim começou a se abrir”, disse Ronen, complementando:

“Comecei a identificar suas dificuldades e passei a elaborá-las. Como objetivo final do projeto, tínhamos em mente produzir um filme em colaboração com Nitzotsot shel K’dusha – Faíscas de Santidade, dirigido por Yigal Hoshiar. E uma significativa parte do filme foi destinada a Chaim, e todos acabaram por felicitá-lo por suas habilidades de atuação. A equipe de produção ficou impressionada pelo talento demonstrado por esse menino”.

Em dois anos passados, dezenas de outros meninos têm passado pelo programa Chasidrama de Ronen, que continua a exprimir sobre alguns outros resultados:

“Cada um deles teve progressos. Alguns mais, outros menos, mas pela primeira vez foi dada às crianças a janela para se expressarem, para falar de seus sentimentos e desenvolverem sua consciência. Falhar em alguma coisa não era mais motivo íntimo a ponto de quebrantá-los e ficarem estagnados. Ao contrário, isso devia servir de motor para que eles mudassem em relação ao futuro, e a coisa mais importante agora é que nós acreditávamos neles”. 

Ronen prosseguiu e disse que compreendia bem esse estado de coisas porque teve as mesmas dificuldades em sua vida, começando, como acontece na maioria das vezes, na infância:

“Eu tinha uma dificuldade na vida porque, em minha infância, eles não acreditavam em mim. E hoje eu faço o que posso para que essas crianças não passem a mesma coisa que eu passei”.

 


 

Uma dificuldade na infância

Ronen é de uma família tradicional de Lud. Seu bisavô foi um mekubal (cabalista) de Tripoli, Rabi Sholom Tayar.

“Minha família tinha um notável respeito pela tradição, sobretudo nos feriados judaicos, quando todas as práticas eram religiosamente observadas. No entanto, tudo era feito de forma mais ritualística, pois passado o Kidush, por exemplo, a televisão era ligada e nós mesmos usávamos o carro. Não havia profundidade. As crianças guardavam menos ainda, nem mesmo as cerimônias e rituais. De jovem ainda, eu desenvolvi uma antipatia, para não dizer ódio, da tradição religiosa.”

A coisa mais difícil que Ronen teve de lidar quando criança foi sua paixão por atuar. Seu pai insistia que ele estudasse em um campo prático.

“Meu pai, que foi educado de outro modo, achava difícil compreender-me. No fundo, eu sentia que não tinha oportunidade de realizar meus verdadeiros desejos. Na cultura na qual fomos educados, eu tinha de trilhar o caminho que meus pais tinham preparado para mim, e isto me causou uma sensível frustração sobre a qual eu não sabia de fato como expressar.”

Ronen acrescentou que quando jovem ele era membro da turma dos Escoteiros: “Eu toquei trompete por treze anos e me apresentei em vários palcos em Eretz Israel e também pelo mundo, mas eu não recebi nenhum reconhecimento por isto de meu pai, e isso tudo eu acabei perdendo”.  

Ronen falou ainda do seu período escolar:

“Meus professores não poderiam entender como um garoto com tal talento e tão bem sucedido teve uma época difícil como um estudante. Hoje, eles atribuem rótulos para tais situações, muito provavelmente porque há maior consciência sobre o assunto. Mas, no passado, eu ansiava por um amor incondicional e bastante caloroso de meus pais, já que o amor que eu recebi foi, ao contrário, condicional.  A mim eram dadas ordens e eu as ouvia, mas o que me importava ou produzia identificação era com o que estava me faltando”. 

Ronen continuou explanando acerca do que vivenciou:

“Eu quis realizar meus talentos e eles não o permitiram. Na pele de uma criança, alguém poderia explicar-me o que eu estava sentindo ou por que eu sentia daquele jeito, mas não foi o que aconteceu.  A poucos dias atrás, minha filha disse para mim a respeito de certa coisa: ‘Abba, eu não gosto disso’. Posso dizer que fiquei bastante tocado com o que ela foi capaz de dizer, algo que, quando eu era criança, não pude fazê-lo. O que quer que eu tenha feito, eu fiz porque eu tinha de fazê-lo. Nenhum crédito foi dado aos meus sentimentos. A cada manhã, eu ia à escola com sentimento de que estava indo a um lugar que eu não gostava, que eu mesmo odiava. Eu esperava pela liberdade juntamente com o toque da campainha da escola quando anunciava o fim das aulas”.   

Ronen ainda disse que quando ficou um pouco mais velho, contou os dias e as horas até poder tornar-se independente e fugir de todas as expectativas sobre ele.

“Eu tinha acumulado raiva e havia perdido a paz em minha mente. Mesmo quando eu me apresentei com o meu trompete e pessoas felicitavam-me, eu não acreditava nelas. Eu pensei que eles eram mentirosos e que estavam apenas dizendo coisas para agradar-me. Sentia-me como uma marionete.”

Somente quando Ronen estava finalmente mais velho o bastante, na idade de cumprir o exército, ele quis ir tanto quanto possível mais distante e se alistou na marinha.

“Eu fui fazer um treinamento para me capacitar no campo de operações de pequenos combates e acabei treinando na equipe de pequenos combates do comando naval. Alguém que me conhecesse, poderia ter certeza de que eu era uma pessoa feliz, confiante e autoconsciente, mas isso estava muito longe de ser verdade. Eu sorria e brincava com o que me envolvia no entorno, mas, por dentro, eu me sentia como um homem pela metade. Por isso que quando eu encontro uma pessoa cínica hoje, eu sei por que ele age desse modo. No fundo, ele não está em paz com sua vida e isso é o que eu senti em minha vida naquele tempo.”

Ronen prosseguiu contando como foi quando chegou ao final de seu serviço militar:

“Neste período, em 1997, aconteceu o ‘Shayetet Disaster’, que também foi chamado no âmbito militar de ‘Ansariya Disaster’. A unidade do comando naval, que eu conhecia tão bem porque os tinha treinado, entrou no Líbano numa noite e doze membros nossos foram mortos. Eu fiquei triste por um longo período e isto forçou-me a pensar no verdadeiro valor da vida. Assim, eu deixei as forças armadas bastante confuso e procurei achar um caminho novo. Eu perdi ainda um ganho em um negócio de risco que fracassou e isso me afundou em débito. Dinheiro não vinha fácil, e eu então comecei a estudar computação.”

Ronen comenta que aqui foi a entrada de um período de profunda e contínua busca, uma época em que fez muitas coisas, saltando de lá para cá com a sensação de que nada o satisfazia  de verdade.

“Nessa área de computação, eu consegui bons resultados e muitos previram ainda melhores resultados neste campo para mim, mas, mesmo assim, eu decidi largar o trabalho com computadores. Daí fui achar trabalho no aeroporto, e, certo dia, eu recebi um telefonema no trabalho de minha irmã. Ela me disse que nossa mãe havia se envolvido em um acidente feio e teve uma perna quebrada. Eu larguei tudo e corri para casa. Foi quando me deparei com a seriedade do caso. Não foi só a perna quebrada, mas uma série de escoriações por todo o corpo. Um senhor de 80 anos havia pegado ela em cheio! No hospital, eles fizeram ataduras e disseram tratar-se de ferimentos superficiais.”

Mas o pior ainda estava por vir, contou mais Ronen, do que aconteceu naquela noite:

“Era a noite de Pessach. Insistimos para minha mãe não se esforçar como ela comumente fazia nessa data. Ela fez uma série de coisas com um dos tios e, quando sentou-se, foi o bastante para perder os sentidos. Aquela cena tomou-me por completo, e, quando os médicos chegaram, ela já estava sem vida. Um coágulo havia se formado em sua perna e subido até os pulmões, bloqueando-os. Daí que neste dia eu de fato experimentei a total intensidade da dor, no entanto, naquele tempo, eu não aceitava sucumbir a ela porque aquela era a minha realidade naquele momento, uma vida desprovida de felicidade verdadeira." 


A Busca 

Ronen escolheu ir tão distante quanto ele poderia. Seu destino foi a Austrália, onde ele ficou um ano com alguns amigos. Eles trabalharam em projetos aqui e ali de modo a cobrir seus gastos, além de gastar o tempo restante na praia.

“Um dia, um de nós decidiu fazer uma viagem ao ponto mais ao norte do continente. Eu fui consultado se poderia dirigir o Jeep até lá. Aceitei e nós seguimos viagem. Eu não sei por que, mas o tempo todo senti uma tensão interna como se alguma coisa ruim estivesse por acontecer.  Eu tentei dissipar esses sentimentos, mas eles, ao invés, só cresciam dentro de mim. No fim, gastamos dias caminhando por entre densas florestas e lugares magníficos. Eu me lembro que fiquei parado admirando esses belezas naturais e pensando: ‘E agora? Cheguei ao ponto mais alto do continente e terei de voltar para trabalhar. Foi para isso que vim até aqui? Não faz nenhum sentido uma pessoa vir a esse mundo somente para gastar sua vida satisfazendo-se’.”

Ronen admitiu a esta altura que tudo isso era uma coisa prosaica para ele, simplista e por que não dizer “burra”.  Ele vivia um torvelinho interior e ninguém poderia dizer o que nele se passava. Exteriormente, ele parecia calmo, ria junto com outros e passou um bom tempo até que o “vulcão” explodiu!

“Uma noite, eu saí da tenda que nós tínhamos armado em uma parada para descansar e senti que eu não conseguia respirar, estava sem ar! Eu me olhei no espelho e estava pálido. Meu coração acelerou e minha boca estava completamente seca. Estava amedrontado como se eu estivesse morrendo. Corri para o hospital e os médicos não acharam nada em mim. Quando eu retornei de nossa viagem, eu procurei outros medicos e eu de fato estava bem segundo eles. Ou seja, até que meu estômago foi examinado e eles descobriram ali a bactéria Helicobater Pylori, que somente produzia sintomas quando a pessoa sente medo ou vive um estresse.”

Segundo Ronen, os sintomas originários dessa bactéria causam náusea e dores estomacais, além do que todo sistema circulatório ficar confuso.

“Deixei passar um tempo e decidi retornar para casa, a Eretz Israel”, contou Ronen. “Eu estava também decidido a não abandonar minha busca por sentido de vida, afinal, eu nem mesmo aceitei a oferta de dirigir um hotel e ganhar um bom dinheiro.”

Mas só foi Ronen chegar a sua casa para seu pai perceber como ele estava e levá-lo a outro médico, este um profissional de primeira linha que acabou confirmando o que os outros na Austrália lhe disseram, que estava tudo bem com ele.

“Eu lembro o que meu pai pediu ao médico, que ele fizesse alguma coisa por mim, para que eu pudesse trabalhar e viver como um ser humano normal. Na realidade, meu pai não fazia ideia do que eu estava me sentindo.”

A busca de Ronen continuou ávida. Ele leu livros de psicologia e filosofia, até mesmo aqueles que indicavam exercícios de trabalho interior.  

“Eu comecei a pensar positivamente e a fazer o que me satisfazia e não o que me era dito a fazer.  Devagar, eu retornei a mim mesmo e como resultado desse trabalho interior, eu percebi que meu maior problema estava em que eu estava desconectado de mim mesmo. Eu estava decidido a realizar todos aqueles sonhos de infância. Foi assim que eu vim a me envolver com um curso de Psicodrama.”

Para pagar o curso, Ronen trabalhou em uma agência de ativos e, logo que terminou o primeiro curso de Psicodrama, já se matriculou em outro.

“Eu adorava o que estava aprendendo e a sensação de liberação. Todas as klipot que me cobriam, desde quando era menino, e tudo que havia mantido dentro de mim por anos, agora, eu estava sendo capaz de botar fora e me purificar.”

Ronen, enfim, sentia-se como um novo homem e isto foi determinante para que se abrisse a ouvir sobre Torá e mitzvot. Ele a partir de então estava mais aberto e receptivo e galgando um degrau importante para tornar-se uma pessoa de entendimento. 

Ronen encontrou também por conta desse novo momento de sua vida um judeu religioso chamado Matisyahu Cohen.  Era um Cohen que o receberia numa nova trilha. A princípio, Ronen ficou cauteloso com essa novidade, mas, sem demora, ele passou a sentir que o judaísmo não era uma religião repleta de regras opressoras, mas, em vez disso, ela continha muita beleza e graça. Ele ainda pôde perceber, com maior clareza, que havia um Criador do mundo e Alguém que dirigia as coisas, pois as coisas não aconteciam simplesmente por si mesmas.

“Eu comecei a pensar sobre como promover o Criador. Eu fui então ao Beit Chabad de R’ Chonon Kochonovsky, em Rishon L’Tzion, onde eu me encontrei com R’ Moshe Gruzman. Àquela altura, sabia apenas uma coisa sobre Chabad e do Rebe, o qual, durante a Guerra do Golfo assegurou que nada de ruim aconteceria ao povo judeu e a Eretz Israel, e ele estava certo.”

Rapidamente, então, Ronen tornou-se um convidado regular do Beit Chabad. Ele aprendeu e ouviu muito sobre o Rebe.  Ficava em suspenso durante o shiur de R’ Gruzman. Vivenciava tremendas percepções que ele nem fazia ideia que existissem na Torá.  

“Duas almas, uma Divina e outra, animal, eram novidades para mim. Eu lembrei-me de ir para casa depois do shiur e meu coração transbordava uma emoção genuína, deliciosa. Sentia que era o que estava buscando para mim. Assim, eu aprendi sichos e maaamarim do Rebe e percebi que eles não só ensinamentos, mas que havia alguém agora ali, um Nasi, um rei que liderava o povo judeu.”

Ronen finalizou um projeto de trabalho importante e levou tempo extra a fim de aprender mais o que estava lhe motivando profundamente.  Mesmo R’ Kochonovsky percebeu a dedicação dele direcionada ao Yiddishkait (comunidade), e lhe sugeriu que ele procurasse uma Yeshivá Chabad em Ramat Aviv. A princípio, ele não estava seguro de que deveria se comprometer, mas, ao chegar lá percebeu que estava mesmo muito envolvido com tudo que estava vivendo e aprendendo.  


Tocando almas

Depois que casou, Ronen lançou sua energia para vários outros projetos. Não imaginou que o que havia lhe ajudado pudesse ajudar outros.

“O drama ajudou-me a neutralizar a falta de confiança e a decorrente carência de  autovalorização, que andaram por muito tempo bem presente na minha vida. Eu encontrei muitas crianças que estavam no mesmo lugar onde eu estive. Eu senti que poderia não permitir que elas não crescessem em um mundo sem confiança. O problema dessas crianças era experimentar a mesma coisa que eu havia experimentado – de não ser capaz de expressarem-se bem. Isso me machucou, pois revia muitas crianças sentindo-se tristes e frustradas, e também desconectadas de si mesmas e definitivamente de seu meio social. Aquelas que não estavam usando suas habilidades e talentos por causa de sua estrutura educacional e familiar não consideravam permitir-se simplesmente.”

Ronen decidiu que ele tinha de criar um programa que desse àqueles meninos um possibilidade real de que expressassem seus sentimentos e relevassem as camadas profundas de suas almas. Isto é como Chasidrama veio a ser.

“Essas crianças precisam de amor incondicional e sua inclusão no seio social. Precisam de um lugar onde serão aceitas como elas são, com fraquezas e deficiências. Somente o amor como este pode nutrir o crescimento. O que é especial no drama é que por meio desse trabalho você entende o que você é de fato capaz. O processo no drama não é menos importante que o resultado final, isto é, os meios são tão importantes quanto os fins. Hoje, em educação, fala-se mais sobre realizações e menos sobre processos. A Guemara diz que assim como suas faces são diferentes uma da outra, assim também é sua visão. Eu acrescento a isso dizendo que suas características e habilidades também o são.”

Ronen segue dizendo que cada aula é cumprida de muitas maneiras e graus de inteligência, cada um diferente do próximo. Não é necessariamente o caso de que uma criança que não é boa em uma matéria não será boa em outra.

“Criianças com déficit de atenção ficam frustradas porque o meio não é inclusivo, embora muitos têm alto índice de inteligência e incríveis habilidades e talentos. Você tem de dar a eles uma chance. O processo não é menos importante aqui que os resultados. É como dar notas a um músico ao ouvir tocando sem conhecer qual música ele está executando. Hashem dá a nós talentos e nossa missão é usá-los. O princípio além de nosso trabalho é dar às crianças as ferramentas com as quais elas podem fazer o trabalho com elas propriamente, e ajudar outras a fazer o trabalho sem máscaras e barreiras.”

Ronen reforça dizendo que muitas dessas crianças devido ao passado deficiente cobrem-se com muitas máscaras e muitas camadas, cabendo a ele e seu programa removê-las de modo a permitir a elas que sejam bem sucedidas e vivam sem medo de fracassar.

"Em cada lição de Chasidrama, eles aprendem muitos conceitos chassídicos e o grande êxito que eles experimentam prova o quanto isto é necessário para eles", revelou Gridish.

Agora, como autor desse artigo (o autor da publicação de Beis Moshiach), ou alguém que está propagando o Chasidrama aqui, testemunho que esse programa está provocando mudanças nas crianças e as conduzindo a resultados muitos positivos.

E novamente a palavra está com Ronen:

“Tínhamos um menino que era digamos introvertido. Eu nunca tinha visto qualquer coisa parecida antes. Ele mantinha suas mãos nos bolsos e os olhos no chão, contemplativo. Falava muito baixo  e conseguir que ele participasse de um exercício posso dizer que, comparativamente, foi como ‘abrir o mar’. Mas não podia desistir dele, por isso não somente permiti a ele atuar, mas em algumas outras coisas dei-lhe atribuições. Ele não tinha escolha e assim ele passou a participar mais dos exercícios.”

Ronen acrescentou que o menino, a princípio, fez meio que obrigado a fazer, mas, depois, ele passou a fazer as coisas com maior alegria ao passo que também mostrava um crescente interesse no que fazia.  

“Com o passar do tempo, eu vi que ele me observava a tal ponto que se eu dissesse que acreditava nele, eu de fato estava acreditando nele ou se tudo não passava de meras palavras. É que ele tinha parado de acreditar nas pessoas, mas, sinceramente, eu acreditava nele porque eu o conhecia.”

Ronen disse que no fim não o surpreendeu o fato de que este menino se tornasse o líder do grupo com o tempo. Eram coisas como essas que lhe traziam alegria, levar crianças como aquele menino, que não acreditavam em si próprios, a perceberem que tinham muito valor.  

“Para fazer o que eu fiz, diria que juntei palavras calorosas, fé e firmeza”, disse Ronen. “Se desistisse dele e de outras crianças, eles todos desistiriam de si próprios a julgar a condição emocional em que se encontravam quando iniciamos o programa”.

Ronen também exemplificou tomando outra criança:

“Havia uma criança no grupo que não demonstrava confiança para nada. Na escola, as outras crianças o chamavam de “sacola furada”, isto porque elas se acostumaram a bater nele.  Eu decidi então tomá-lo como um “projeto”. Quando Eu dava a ele alguma coisa que necessitava um pouco de esforço de sua parte, ele dizia: ‘Eu não posso, eu não sou bom, ele é melhor que eu’.

Ronen sustentou que fez de tudo para não ceder ou desistir do menino, mas, ao contrário, ele o desafiaria com coisas que acreditava ser o menino capaz de realizar.

“Quando ele insistia dizendo que não era capaz, eu não passava a tarefa para outra criança”, revela Ronen. “Ao contrário, eu calmamente dizia a ele que era a vez dele e o aguardava até ele conseguir fazer. No começo, ele fazia somente o que lhe era possível, mas segui persistindo com ele transmitindo-lhe a mensagem de que ele era capaz.  Depois de algumas semanas, a mensagem atravessou-o a ponto de ele acreditar que o que eu dizia em acreditar nele era verdade. As outras crianças também ajudaram, passando a admirar o trabalho, e assim ele começou a receber um feedback positivo.”

Ronen disse ainda que aos poucos foi atribuindo papéis maiores ao menino. Eventualmente, ele começou a mostrar sinais de entusiasmo e alegria de viver, e era o primeiro a esperar por Ronen antes de qualquer outro.

“Pude verificar as habilidades pessoais do menino”, prossegue Ronen. “Essas habilidades que todos nós temos, mas nós todos o ajudaríamos a revelar o que ele já tinha esquecido, ou, talvez, embotado. Mesmo nos casos em que ele fazia algo que não era tão perfeito, ele aprendeu a aceitar que isto estava dentro do normal e que da próxima vez seria melhor. Isso trouxe mudanças significativas em todos os aspectos de sua vida – em aula, na sinagoga e também em casa. Ele tornara-se, então, uma criança feliz.”

Ronen, que foi treinado como um “coach pessoal” e lidera grupos de Chasidrama, está desenvolvendo exercícios e o programa dentro de um sistema estruturado. Ele tem escrito os objetivos de acordo com os ensinamentos da Chassidut e está utilizando seu conhecimento e experiência para desenvolver um programa estruturado.

“O que é o mundo do Tikun? É quando as crianças acham seus respectivos lugares, de modo a não se frustrarem e experimentarem emoções negativas, porque essas já lhe são conhecidas. Quando o Rebe for revelado na verdadeira e completa Gueulá (Redenção), o mundo será retificado.  Cada um de nós é um universo em miniatura. No passado, pessoas podiam ser capazes de viver uma mentira, mas hoje vivemos em uma geração diferente que despreza falsidades.”

Um Novo Projeto

“Chasidrama para homens” é um novo grupo que está sendo formado. Ronen disse que ele não foi o autor da ideia.

“Esta geração possui uma mascara que precisamos remover”, ele disse. “Eu tenho uma crença profunda na Avodá (trabalho) que a pessoa pode fazer. Você faz a sua parte e Hashem faz a Dele; santifique-se aqui em embaixo e Hashem santificará você de Cima. Abrir-se para um propósito começa com o tamanho de uma agulha, mas Hashem fará você abrir-se para o tamanho de um salão.”

Ronen atendendoRonen completa dizendo que quando alguém se apruma, por assim dizer, não somente fará com que a pessoa própria seja feliz, mas as que estão também a sua volta.

 “Eu tenho visto isto em meu meio”, ele diz, “sobretudo depois que passei a ensinar D’var Malchut com meu pai uma vez por semana ao telefone.” 

 

 * Comentário do tradutor: "Conseguimos contato por email com Ronen Gridish, que ficou extremamente contente com essa publicação no site do Beit Chabad Vila Mariana. Disse que se for possível, oportunamente, nos passaria algum material do seu trabalho com o projeto Chasidrama. Agradecemos muito a oportunidade de traduzir essa matéria para o site." 

 

 

 

Pessach Chusyd
Escrito e Editado por 
Quinta, 04 Dezembro 2014 00:00
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Última modificação Domingo, 07 Dezembro 2014 20:06
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